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O cuidado como política

Hoje no dia da Consciência Negra, eu escrevi um pequeno trecho no facebook sobre a importância do cuidado como política. Eu queria falar ...

Hoje no dia da Consciência Negra, eu escrevi um pequeno trecho no facebook sobre a importância do cuidado como política. Eu queria falar mais, mas o tempo não permitia. Então resolvi dar uma paradinha agora e tentar escrever antes que as ideias fujam de mim.
Penso que vivemos dias difíceis, mas que também são dias de grandes aprendizados, se soubermos destas experiências extrair as riquezas que elas têm nos oferecido para transitarmos para momentos futuros, com possibilidades de gerarmos neles o que não conseguimos até agora, o que ensaiamos, mas deixamos no caminho. Falo de uma energia de alegria, de solidariedade, de delicadeza que nos envolveu em um fazer político até pouco tempo, nos mostrando claramente tanto as possibilidades deste fazer quanto a vontade de muitos e muitas por ele. Algo no caminho confrontou com esta dinâmica violentamente, tentando encaminhar muito do que já era conhecido lá do passado (e isto não preconceito com o passado), que não era mais desejado e que já sabíamos não funcionar mais, pelo menos por estes tempos atuais. Desde então, tempestades têm caído com constância, exigindo mudanças de valores e de formas no trabalho político, mas não são vistas ou ouvidas, pelo menos não por muitos. Há escritos, há textos, análises, portanto registros dos fatos, por parte dos que têm escutado e considerado as mensagens das dinâmicas cotidianas de lutas políticas ultimamente travadas. Temos claro que muito há que se fazer, mas creio que precisa ser feito orientado pela lógica do cuidado, do cuidado principalmente com o outro, o estranho aos nossos mundos. Creio que este seja um dos grandes desafios para o início da jornada de outros novos desafios que devam não ser poucos, mas outros a nos dirigirem para relações humanas melhores. Não digo que venham para a solução de todos os nossos problemas. Claro que não! Mas para formas diferentes de trata-los entre nós. Sem respeito de fato pela dor do outro não mudamos muita coisa. Podemos gerar impressões de mudanças, mas logo, como já tem acontecido, voltaremos para o lugar das preocupações de sempre, parecendo que não andamos ou o fizemos quase muito pouco.
Sobre o dia de hoje, também sabemos que palavras não são suficientes para mudar o quadro de desrespeito de todas as ordens que acomete a comunidade negra em todos os níveis de vida material dos quais ela participe. Há diferenças sim, mas em todos os casos há violência. Somos estimulados a nos dividirmos para favorecermos a política de sempre em troca, muitas vezes, de um pouco mais de visibilidade pública, de uma autoestima mais massageada e isto, para mim, não deve ser visto como algo bom, nem para os negros e nem para a sociedade como um todo. Precisamos cuidar do hoje, mas também olharmos para o longo prazo. Tais atitudes não nos tirarão, com a urgência de que necessitamos, do lugar onde nos encontramos hoje, muito pelo contrário e a história está aí a demonstrar com muitos fatos. Portanto, o cuidado de todos os tipos e formas, ao meu ver, deve ser a tônica de nossos trabalhos políticos. Cuidado com os nossos familiares, com nossos colegas, amigos, vizinhos, com a natureza, com os animais, as plantas, as águas enfim.....com a vida de todos. Muitos ainda não se deram conta da importância destes atos e acabam matando muitas coisas de diversas formas. Mas, no dia seguinte, o colorido da vida está a nos mostrar que ela sobreviveu e, portanto, nós também para mais dias de lutas por um mundo melhor, que para assim ser, nos exige cuidado com nossos valores espirituais principalmente. Sob esta ótica, a competição estimulada não deveria ser alimentada, pois não gerará avanços para a humanidade. Vamos ter cuidados uns com os outros, nos acarinhar, nos tratar bem, nos querer bem. Até há alguns dois anos atrás era isto que dizíamos de várias maneiras e nos sentíamos felizes e encantados com isto. Não estávamos alienados não. Estar feliz não é sinônimo de estar alienado não. Muito pelo contrário, a alegria e o prazer nos dão força, nos revigoram, nos rejuvenescem para as lutas diárias e todos sabemos disto.

Não podemos perder de vista que há pessoas morrendo de fome. Há pessoas sendo agredidas e violentadas em suas dignidades de trabalhadores e trabalhadoras. Nossos representantes políticos precisam desenvolver cuidados por eles, educar a sociedade para respeitá-los e para saberem discernir pobreza de criminalidade. Isto é amor praticado, é o céu na terra, é cultura nova, é mundo melhor, é política com grandeza de razão e sentimentos, é estender a consciência negra para a condição de consciência humana, evitando que esta torne-se simples retórica. Bom final de 20 de novembro por hoje!
Isabel Cristina Chaves Lopes é Profª Adjunto II do quadro permanente da Universidade Federal Fluminense. Doutora em Ética e Direitos Humanos pelo Programa de Estudos Pós-graduados em Serviço Social da PUC/SP (2014). Mestre em Serviço Social e trabalho pela UERJ (2002). Especialista em Serviço Social Contemporâneo pela UFF/ESR/SSC (1996). Graduada em Serviço Social pela UFF/ESR/SSC (1989). Coordenadora do Nediger (Núcleo de Estudos sobre Ética e Diversidade de Gênero, Etnia e Racismo) da UFF/ESR/SSC .
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